Jardins com Histórias

Jardins da Madeira. As suas flores, as suas histórias.

quinta do palheiro ferreiro


Breve Resenha Histórica

Em 1813, D. FR. JOAQUIM DE MENESES E ATTAÍDE deixou gravadas no Diário da sua visita pastoral às Igrejas da costa de cima da Ilha da Madeira algumas impressões sobre a então muito jovem Quinta do Palheiro Ferreiro: “Seguimos a direcção de Palheiro de Ferreiros, Quinta magnífica de João Carvalhal Esmeraldo, criada por ele desde o seu princípio do cume de um alto monte, que domina o mar e a cidade para a parte do Nascente. Esta Quinta tem muito arvoredo de castanheiros, pinheiros e outras árvores silvestres, e próprias para bordar as grandes ruas que mandou abrir. É tão grande e espaçosa que tem muita terra de semeadura, de mato, de pasto, de hortaliças, e de pomar. É muito farta de água porque a fez conduzir na distância de dezoito mil pés com grande benefício daquelas vizinhanças. Esta fazenda começada há nove anos será em poucos anos como uma propriedade real pela magnificência e gosto com que vai principiada. Fica a meia distância da cidade ao lugar da Camacha. As estradas até este sítio ainda que íngremes são bem calçadas, e podem caminhar duas cavalgaduras”.

Esta descrição, reveladora de uma perspicaz observação do prelado, fornece-nos elementos importantes sobre os primórdios da Quinta do Palheiro Ferreiro, que deve ter nascido no ano de 1804. Nove anos após os primeiros trabalhos existiam já as longas ruas bordadas de árvores a marcar formalmente a organização da propriedade que se repartia por terras agrícolas, de pasto e matagal. Os jardins com a profusão de espécies e cores, que hoje constituem o principal atractivo da quinta e o objectivo deste estudo, ainda mal se faziam notar.

A Quinta do Palheiro Ferreiro em poucos anos tornou-se ponto quase obrigatório de visita para as personagens mais ilustres que desembarcavam no Funchal. Em “1817, a arquiduquesa Leopoldina da Áustria passou pela Madeira, a caminho do Brasil, onde ia casar com o imperador Pedro I, esteve na Quinta do Palheiro, confessando-se deslumbrada, assim como a sua comitiva” (LAMAS, 1956).

O anfitrião da Arquiduquesa foi João José Xavier de Carvalhal Esmeraldo de Vasconcelos de Atouguia Bettencourt Sá Machado, primeiro Conde de Carvalhal, fundador da Quinta “... que se destinou primeiro a tapada de caça, tendo nela construído um pavilhão de reunião em pleno bosque de abetos e carvalhos, plantados ao lado das naturais essências existentes (dos loureiros), e que em 1826 estava recortada por numerosas alamedas e ajardinada ao redor do edifício com alegretes de arbustos, canteiros de flores e renques de camélias, que faziam já a admiração e o encanto do estrangeiro que visitava a propriedade” (CORRÊA, 1927).

O segundo Conde, António Leandro da Câmara Carvalhal Esmeraldo Atouguia Sá Machado, sobrinho neto do primeiro Conde, procedeu a obras na quinta, que decorriam, entre 1853 e 1855 (FRANÇA, 1970).

Quando o segundo Conde de Carvalhal faleceu, em 1888, já não era proprietário da Quinta do Palheiro Ferreiro. Esta tinha sido comprada em 1885 por John Burden Blandy, que ali recebeu o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia quando visitaram a Madeira em 1901.

Desde então, a maior quinta da Madeira está na posse da família Blandy. Os actuais proprietários, Adam Blandy e sua mulher Cristina, têm dado continuidade à obra de Mildred Blandy, falecida em 1981, que dirigiu os jardins durante mais de cinco décadas, enriquecendo-os com imensas espécies vegetais, muitas delas originárias da África do Sul, sua terra natal.

  Planta da Quinta do Palheiro Ferreiro   cartografia de Eugénio Santos

Planta da Quinta do Palheiro Ferreiro
cartografia de Eugénio Santos


Os actuais jardins da Quinta do Palheiro Ferreiro são o resultado de sucessivas influências externas nos seus dois séculos de vida.

O primeiro Conde de Carvalhal esteve exilado em Londres entre 1828 e 1834. Durante essa estadia deve ter sido influenciado, não só quanto à arte mas também quanto às espécies vegetais a cultivar nos jardins da sua quinta.

O segundo Conde passou imenso tempo em várias capitais europeias e é possível que, para além das obras de melhoramento da casa, tenha introduzido algumas modificações na estética dos jardins respondendo à moda da época.

O arquitecto George Somers Clark, que projectara o Reid’s Hotel, foi incumbido por John Burden Blandy de elaborar a planta da nova residência, que foi construída entre 1889 e 1901 num pequeno terraço natural localizado a norte da primitiva moradia. O edifício, que faz lembrar as casas inglesas do período vitoriano e sem qualquer aparência com a arquitectura das antigas casas senhoriais madeirenses, implicou grandes modificações nos jardins.

Foi então que nasceu o Main Garden, nos terrenos que se estendem a sul e a um nível inferior. Este jardim de formas regulares, tem como elemento orientador um eixo central, que desemboca na escadaria que dá acesso ao terraço onde se localiza a casa. O piso desta alameda, como das transversais que a cruzam perpendicularmente, é de pequenos calhaus rolados dispostos com mestria, dando um toque caracteristicamente madeirense aos jardins.

Os canteiros ocidentais deste sector são relvados, apresentando um rebordo de pequenas árvores, arbustos e herbáceas. Em posição assimétrica sobressaem dos relvados três árvores isoladas de grande porte (canforeira, no canteiro norte, cedro-prateado-do-atlas, no do centro, e tulipeiro, no canteiro sul).

Nos três canteiros orientais, o do norte tem uma morfologia diferente. Conhecido por Sunken Garden foi criado pela Senhora Mildred Blandy na área onde se localizava o campo de croquet. Apresenta uma sebe baixa de buxo bem aparado a limitar a depressão central que reúne, com sentido estético, um pequeno lago octogonal habitado por rãs e nenúfares, pequenas peças escultóricas e arbustos de formas minuciosamente trabalhadas. Por entre as pedras, que cobrem os taludes, proliferam pequenas plantas gordas e outras espécies pouco exigentes em água. Os dois canteiros posicionados a sul têm uma estrutura semelhante aos ocidentais, mas sem as árvores de grande porte.

A extremidade sul do Main Garden confronta com a mata onde espécies indígenas como o loureiro, o folhado e a faia-das-ilhas repartem o espaço com plátanos, azinheiras, pinheiros e acácias.

A ocidente do Main Garden localiza-se o Ribeiro do Inferno. Neste pequeno vale a vegetação não respeita qualquer disciplina formal confundindo-se com a natureza livre. Enormes exemplares de espécies indígenas da Madeira (Laurus novocanariensis, Ocotea foetens, Persea indica) vivem lado a lado com plantas exóticas perfeitamente adaptadas a este microclima.

Das espécies exóticas que povoam o Ribeiro do Inferno, sobressaem, pelo seu número e marca na paisagem, os fetos arbóreos e as camélias. Aqui também podemos encontrar rododendros oriundos da região dos Himalaias. É interessante relembrar que o aparecimento do jardim silvático como expressão máxima do jardim informal, em meados do século XIX, está relacionado com o culto pelos rododendros, que teve por berço a Inglaterra e se expandiu pela Europa continental.

A norte do Ribeiro do Inferno localiza-se a Alameda das Camélias, que se estende entre a casa edificada pela família Blandy e um local conhecido por Avista Navios, devido à vista privilegiada da baía do Funchal.

Um riacho separa o Main Garden da área onde se localiza a capela. Contrastando com a pequenez do templo, duas enormes araucárias (Araucaria excelsa e Araucaria bidwillii) e um grande pinheiro (Pinus patula) chamam à atenção pela sua imponente presença nos relvados que se estendem ate às traseiras da Casa Velha do Palheiro, uma requintada unidade hoteleira inaugurada em 1997, que integra a recuperada casa dos Carvalhal.

Perpendicular à alameda que liga a entrada principal da quinta à primitiva moradia, e junto à capela, o Long Border estabelece a ligação com o Jardim da Senhora.

Ocupando o canto sudeste do vasto espaço ajardinado, onde outrora existiu um campo de laranjeiras, o Jardim da Senhora ostenta uma morfologia formal que ressalta à vista no traçado dos seus lagos, no corte cuidado dos buxos que limitam os canteiros ou nas formas animalescas impostas a alguns arbustos.

A oeste do Jardim da Senhora localiza-se aquela que foi a primitiva área ajardinada da Quinta. Perpendicular à fachada da antiga Casa dos Condes, uma extensa alameda de plátanos funcionava como elemento ordenador, separando a mata dos terrenos agrícolas. A alameda ainda se mantém, mas agora integrada no campo de golfe. Entre o rejuvenescido edifício e este eixo principal, há um espaço relvado, maior que outrora porque dos três lagos rectangulares onde viviam cisnes e plantas aquáticas apenas foi mantido o mais distante do hotel. A ladear o espaço relvado deste núcleo primitivo dos jardins há um conjunto de árvores de porte e origens muito distintas. Uma sobressai pela volumosa figura e beleza. É o Metrosideros excelsa, árvore de folha persistente, originária da Nova Zelândia onde é conhecida como a árvore do Natal, pois nessa ilha antípoda da Madeira cobre-se de flores avermelhadas no mês de Dezembro. Na Quinta do Palheiro as flores aparecem em Junho.

Para Sul e Este do Jardim da Senhora estende-se o Palheiro Golf. O campo de golfe, inaugurado em 1993, ocupa a antiga mata e grande parte da área agrícola, que pertenciam e davam identidade à Quinta. Os terrenos a Este e a Norte dos relvados integram uma exploração de floricultura (Florialis) e estão plantados com várias espécies de proteáceas.

Em Novembro de 2006 a Quinta do Palheiro Ferreiro recebeu, numa cerimónia realizada em Monte Carlo, o galardão referente ao melhor jardim do mundo Relais & Châteaux, distinção que premeia a excepcional riqueza florística, associada à elevada qualidade da unidade hoteleira integrada neste espaço verde.


Raimundo Quintal, in “Quintas, Parques e Jardins do Funchal: Estudo Fitogeográfico”, págs. 299 a 304, Esfera do Caos Editores, Novembro de 2007.